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Augusto dos Anjos

Biografia | Obra: Versos de amor 

Biografia
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, poeta brasileiro (Espírito Santo PB 1884 - Leopoldina MG 1914). É autor de um único livro, de grande popularidade, Eu (1912), depois aumentado para Eu e Outras Poesias (1914). Seus poemas, cheios de lirismo e melancolia, apóiam-se entretanto num vocabulário científico. Abordam temas como a morte, cemitérios, hospitais e revelam influências tanto literárias (Antero de Quental, Cesário Verde, Baudelaire) como extra-literárias (Darwin, Haeckel e todos os revolucionaristas).

Versos de amor


Augusto dos Anjos

Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, prova-a, chupo-a... ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.

Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!

Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, aposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.

Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.

Porque o amor, tal com eu o estou amando,
É Espírito, é éter, é substância fluida,
É assim com o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!

Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Mársias - o inventor da flauta -
Vou inventar também outro instrumento!

Mas de tal arte e espécie tal trazê-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!

Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d’ alma!

 

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